E quem se importa com as crianças negras?

E quem se importa com as crianças negras?

Por Viviana Santiago para o Palavra de Preta

Eu já escrevo há algum tempo, coopero com blogs, com revistas, sites… com vários espaços de mídia alternativa que se propõem a a partir da informação construir um mundo melhor, nesses espaços algo sempre me incomodou: Todas as vezes em que eu escrevi sobre criança os textos nao reverberam, a mensagem nao chega a outra pessoa.

Me preocupei muito, pensei em como estava a escrita, revisitei abordagens, focos e ainda assim, se o assunto era criança, o texto nõ engajava,  e assim aos poucos fui deixando de escrever sobre a vida das crianças negras, tornando então as crianças parte do problema.

Lembrei que vivemos em uma sociedade racista que nos irmana a nós pessoas negras na diáspora em torno da luta antirracista, mas esqueci que ainda assim é uma sociedade adultocêntrica. O saber, a vida, a performance e os desejos das pessoas adultas são o que contam. Criança nessa sociedade é uma preparação para vida adulta, com meia cidadania, meia voz e meia importância.

Erguemos nossas vozes quando um menino negro é assassinado, mas precisamos de mais: Precisamos identificar  as praticas do racismo na infância que matam todo dia um pouco mais na escola, na pracinha, no cursinho, nas atividades esportivas.

Escrever sobre crianças, ser criança preta não é o problema. O problema é não termos nos libertado desse ranço adutocêntrico que não nos permite interagir com as crianças de maneira plena considerando seu lugar do mundo como um lugar relevante para discussão, problematização e aprendizagem, porque sim, se aprende muito quando se abandona o binômio pessoas adultas sabem tudo x crianças sabem nada, percebemos ali uma sofisticação, um frescor , uma percepção da vida que nós pessoas adultas não teremos nunca mais, percebemos a potência para a construção de respostas, então imagine o poder dessa vivência e dessa relação com as crianças para a construção de estratégias de enfrentamento ao racismo?

Sair da visão adultocêntrica nos permitiria ir além de um paradigma curativo de estratégias de enfrentamento ao racismo, que quando centradas na vida adulta, atuam sobre uma violência que já aconteceu. Imagine que a violência racista não começou quando estávamos crescidas e crescidos, estava lá na infância, permeando o processo de construção de nosso autoconceito, mediando nossa relação com mundo e nos fazendo já ali nos sentir menores, sentir uma dor para a qual ainda nao tínhamos nome.

As crianças negras não são o problema, precisamos trazer sua existência para o centro dos nossos processos, elas são a chave para a construção de uma resposta plena ao racismo. Escutemos as crianças, aprendamos com elas, elas têm muito a nos dizer.

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2 comentários em “E quem se importa com as crianças negras?

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