No 08 de Março temos que falar de racismo e temos que incomodar a Branquitude

No 08 de Março temos que falar de racismo e temos que incomodar a Branquitude

Por Viviana Santiago para o Palavra de Preta

É 08 de março mais uma vez, e mais uma vez, nós mulheres nos organizamos em torno de processos de luta e reivindicação por uma sociedade mais justa que nos permita alcançar o status de cidadania plena e não uma subcidadania como se vive na prática. Esse é um discurso poderoso, mas ao mesmo tempo homogeinezador, se não fazemos uma análise interseccional, fica-se com a impressão de que nós mulheres, todas e cada uma, vivemos a mesma vida e estamos diante dos mesmos desafios e violências, o que não é verdade.

Somos todas mulheres e numa sociedade patriarcal isso nos irmana, no entanto não somos as esmas mulheres, somos mulheres negras, indígenas, brancas, ciganas, migrantes, com deficiência, cisgêneras, transgêneras e isso significa dizer que em nossas vidas de mulheres interagem multiplos e simultâneos sistemas de dominação.

Falo aqui do meu lugar de mulher negra e tenho aqui a necessidade de apontar que na vida de mulheres negras, não sofremos apenas por sermos mulheres, mas também e muitas vezes principalmente por sermos negras, e dessa maneira ações que promovam a igualdade de gênero sem levar em conta um enfoque racial não terão a possibilidade de alterar completamente a minha situação na sociedade podendo inclusive agravá-la uma vez que estabelece um padrão de igualdade que não existe.

Pautar direitos para mulheres negras não pode ser feito sem questionar o sistema de dominação racista, e esse questionamento tem que construir a partir do reconhecimento de uma dinâmica social que não surge do nada, precisamos questionar quem se beneficia dessa estrutura que tem a capacidade de gerar privilégios e construir intencionalmente desigualdade.

O problema dessa proposta de discussão é que ela incomoda. Ela gera um desconforto porque questiona posições historicamente construidas mas que parecem naturalizadas, elas levam ao reconhecimento que nao existe igualdade, mas existe especificidades que precisam ser reconhecidas e enfrentadas, e isso nem todo mundo quere scutar.

Discutir desde um enfoque racial é discutir privilégio, é discutir quem vem se beneficiando da estrutura racista que escravizou, mutilou, estuprou, matou e subordinou o povo preto desse país, que estuprou mulheres negra, transformou seus corpos numa estrutura de produção e reprodução do sistema e esvaziou sua vida da dignidade humana, e isso beneficiou e beneficia a branquitude ate hoje

Reconhecer um enfoque racial é reconhecer que ainda hoje meninas e mulheres negras nas mesmas condições de pobreza que meninas e mulheres brancas vivem uma vida pior, porque a pobreza negra é pior, porque o tratamento que se recebe quando se é criança negra na escola mulher negra na vida é diferente, pelo fato de sermos negras e isso é beneficio para meninas e mulheres brancas, pois simultaneamente a produção da inferioridade está a produção do privilégio.

Precisamos fazer o discurso que incomoda, diante do genocidio da população negra do país, diante de uma diminuição dos homicidos de mulheres brancas mas do aumento de homicidios de mulheres negras na violência domestica, do encarceramento das mulheres negras, da criminalização da pobreza fica explicito que precisamos quetsionar o sistema patriarcal que produz a violência, mas precisamos reconhecer o patriarcado racista que fode ainda mais a vida das mulheres negras.

Quem se beneficia da inferioridade das mulheres negras?

Quem se beneficia dos nossos corpos negros objetificados?

Quem se beneficia da ridicularização das nossa pele e cabelo que viram fantasias de carnaval?

Quem se beneficia da nossa existência ser reduzida a uma caricatura?

Essas perguntas incomodam, e não têm sido feitas.Sob o argumento de dividir a luta e afugentar aliades; Tenho perdido “amizades” todos os dias, mas nao me submeto a uma discussão de direitos que ignora que por ser negra, a violência sob minha vida  tem especificidades de um patriarcado que também é racista e que nao tocar nesses pontos é agravar essa violência pois num enfoque liberal me torna cúmplice e co-responsável por ela.

É preciso incomodar. A discussão sobre a vida das mulheres que nao reconheça as especificidades de cada uma das mulheres não alcança o bem viver. E nós mulheres negras lutamos contra o racismo contra a violência  (lesbo-bi-trans fobica) porquê entendemos que só assim se chega ao bem viver.

Por um 08 de março antirracista que incomode a branquitude.

Batuquemos!

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