Você acha engraçado, mas é racismo.

Você acha engraçado, mas é racismo.

Por Viviana Santiago para o Palavra de Preta

Esses dias me deparei com uma situação explicitamente racista, o clássico: Num aeroporto um homem branco após anunciar que ali era um espaço de viajantes profissionais advogados, executivos, assessores, me pergunta o que eu fazia ali, se por acaso eu, mulher-negra, era cantora…Veja bem: todas as outras pessoas brancas naquele espaço, foram lidas como profissionais de sucesso na sociedade capitalista  e do conhecimento  com atuações que a princípio requeriam um intenso período formativo, acadêmico e lidas socialmente como atividades intelectualizadas, mas a mulher negra ocupa o lugar do exótico e da fantasia e já que eu não era a moça da limpeza, estar ali não podia ser pelos mesmos meios que as demais pessoas brancas, então volta àquele raciocínio: gente preta se não tá limpando, tá cantando ou sambando.

Não existe nenhum problema em cantar e ou sambar, mas é preciso levar em conta que vincular pessoas negras apenas a esses papéis só é possível devido articulação de uma percepção racista e reducionista que impede as pessoas de perceberem as pessoas negras ocupando outros lugares na sociedade, e esse é o problema, de um poderoso estereótipo racista que confina as pessoas negras a lugares exotificados e/ou subalternos da sociedade, e como todo poderoso estereótipo, é tao naturalizado que é assumido como verdade indiscutível.

Num país em que a maior parte da população é negra, em que a população negra ocupa os piores indicadores econômicos e sociais: as piores taxas de emprego, renda, alfabetização, acesso a saúde, lazer, de fato não é de se espantar que as pessoas achem graça numa atitude racista, afinal, o lugar do povo preto no Brasil  é esse: o da subalternidade;  e ninguém questiona isso.E  é exatamente disso que se trata:  assumir uma postura antirracista significa questionar o que parece lógico e natural, significa se insurgir contra os lugares pre-determinados para a população negra, significa perceber que não é piada, não é brincadeira, é racismo,

Não é brincadeira, nem é engraçado ser menina e mulher negra e decidir usar o cabelo solto e sempre ser chamada de globeleza;

Não é divertido ser menina preta na escola e ser chamada de cabelo de assolan,

Não é engraçado quando todas as pessoas podem ser lidas como profissionais e acadêmicas e a mulher negra só é enxergada como babá, moça da limpeza, cantora ou dançarina;

Não é piada  ser mulher negra e todas as vezes exaustivamente ser seguida nas lojas porque pensam que você pode roubar;

Não é engraçado quando falam que a pessoa preta não vai aparecer na foto porque ela é muito escura;Nada disso é graça, piada, brincadeira, diversão. Tudo isso é racismo, e precisamos despertar a nossa capacidade de enxergá-lo para então enfrentá-lo. Existem perguntas a serem respondidas: Por que pessoas negras não podem ser percebidas a partir da mesma métrica usada para a população branca? Por que você não consegue identificar as mesmas potencialidades para as pessoas negras que você consegue enxergar nas pessoas brancas? Por que você não consegue imaginar as pessoas negras ocupando todos os lugares na sociedade?

Quando conseguir responder a essas questões vai perceber que tudo isso que você acha engraçado. e divertido agoranada mais que perversas  reiterações de um conteúdo racista que limita, violenta e destitui a população negra brasileira do seu direito a uma vida plena, do seu direito a um Bem Viver

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